segunda-feira, 30 de outubro de 2017

Barbieri, o culto e o oculto do Rock Brasileiro.

Se eu tivesse que entrevistar o Barbieri mais uma, duas, três vezes, ainda assim faltariam muitas histórias para contar. Produtor, radialista, jornalista, essa figura incansável segue em frente com seu legado de amor pela arte.
Vamos ao papo !

Entrevista por Luis Carlos



1 - Quem era o Barbieri antes de tornar-se essa pessoa multifacetada na música?
Barbieri: Bom, acho que sempre fui uma pessoa multifacetada. Já explico! É que minha vida desde que me entendo por gente foi multifacetada. Sempre fui um sonhador, o que hoje em dia o povo conhece como “nerd”.  Coexistir com o meu universo mental e a minha realidade física sempre foi muito difícil. Na escola prestar atenção nas aulas era uma tarefa quase impossível. Agora, aprofundar-me nos assuntos de meu interesse, quase uma obsessão.
Para, caminhar da ficção científica à exploração espacial, filosofia da ciência, discos voadores, todo tipo de arte incluindo obviamente o rock, para mim, sempre fez muito sentido. A verdade é que meu jeito de ser causou-me desde criança um conflito com meu pai que não entendia o porquê das minhas notas baixas na escola. Então, muito cedo, adaptei-me e encontrei meu jeito de viver no meio dos “normais”. Me apelidei de “o mestre da corda bamba” e virei um “expert” em design, quero dizer, tudo para mim é a mesma coisa, texto, desenho, música, etc. Eu adoro, no computador, reagrupar coisas, juntar palavras e criar um conteúdo novo. Da mesma forma adoro juntar imagens já existentes e agrupa-las para transmissão de uma nova mensagem. Eu chamo isto de “colagem digital”. Quando crio música, entendo que o rock é um grande camaleão que me permite de forma livre reagrupar vários elementos para criar o novo. Imagine, que com todas essas limitações, cheguei a ser um Chefe  de Divisão, administrando a Divisão de Cadastro do Banco Noroeste do Estado de São Paulo. Neste período tinha que ter duas identidades. No banco usava terno e gravata e administrava uns 30 funcionários.
Lá pelo começo dos anos 70 coloquei um brinco na minha orelha esquerda. Era fã da série de TV do pesquisador marítimo francês Jacques Cousteau e quando percebi que alguns de seus marinheiros usavam um brinco achei o máximo. Para mim era como se fossem símbolos de liberdade.
Então, a roupa que usava para ir trabalhar, considerava como se fosse a minha identidade falsa. Quando saia do banco imediatamente tirava a gravata e colocava o meu brinco bem pequeno, de ouro, formato argola que, quando colocado, ficava exatamente igual à dos marinheiros do programa de TV.  Obviamente, quando colocava o brinco assumia imediatamente a minha outra identidade; a de roqueiro. Sabia que era apenas um brinquinho, mas, para mim era como tivesse assumido uma nova persona.
Sempre que podia, na hora do almoço ou quando saia do trabalho, fazia o circuito dos sebos de disco buscando por vinis raros.  Cabe lembrar que, me refiro a sebos de disco porque, no começo, eram mesmo. Espalhados pelo centro velho de SP, um sebo de disco era apenas uma salinha, perdida em algum andar de um prédio velho, quase sempre sem muita mobília ou decoração e em alguns casos extremos, apenas com uma cadeira para o dono sentar sempre cercado de pilhas de vinis pelo chão. Este sim foram tempos emocionantes onde podíamos sair destas lojinhas com um álbum debaixo do braço, absurdamente raro, mas, pago com um preço absurdamente barato.

Dentro da minha “patologia” colecionar coisas sempre foi uma constante: tampinhas garrafa, marcas de cigarro, figurinhas, gibis e mais tarde vinis, CDs, mp3, vídeos e muitos livros...
Sempre me interessei por música, então, em 1974, mesmo trabalhando no banco abri em parceria com meu irmão Jorge uma lojinha de discos no Bairro do Limão chamada Stocking Music Center (Stocking significa “meia de seda” e era uma referência à androgenia de Alice Cooper, David Bowie e Marc Bolan).  A loja durou apenas aproximadamente um ano, mas fiz amizades que duram até hoje. Anos depois abriria outra lojinha chamada Rocker.  (Eu fui o primeiro a lançar as camisetas de rock no Brasil. A minha marca chamou-se Rocker e fui o primeiro revendedor da Galeria do Rock)
Foi só lá pelo começo dos anos 80 que tive a oportunidade de aprender tocar um pouco de piano. Foi com Enny Parejo, hoje uma renomada especialista no ensino musical. Na época nós éramos apenas namorados e nossa relação professor/aluno nunca foi fácil porque, sempre fui um estudante difícil para estudar e seguir normas e convenções. Entretanto, como percebi que Enny e seu amigo Vado (Oswaldo Mori, hoje falecido) faziam uma excelente dupla musical, logo estava produzindo vários show deste duo no Teatro Lira Paulistana, Centro Cultural e outros teatros.

Neste período, também virei o empresário da banda Avenger, uma das primeiras bandas 100% Heavy Metal de SP. Também levei-a para tocar no Teatro Lira Paulistana. O show do Avenger no Lira praticamente deu a partida para o Projeto SP Metal que rolou neste mesmo teatro em duas temporadas, durando vários meses. Com o início do Projeto SP Metal no Teatro Lira Paulistana “a pedra começou rolar”  e logo eu estaria fazendo o Projeto Metal, Rock & Cia. no Sesc Pompéia, acabaria sendo convidado para ser o apresentador da Praça do Rock no Parque da Aclimação e como resultado, me tornado uma figura conhecida na cidade e principalmente na Galeria do Rock.
Evidentemente, existem muitos “Barbieris” dentro da minha cabeça. Existe o roqueiro, o músico, o político, o artista gráfico, o crítico musical, o jornalista, o escritor, o homem que se casou três vezes, etc. Cada um destes personagens daria material para um livro.... Portanto, fico por aqui e vamos para a próxima pergunta!

2 - Você que viveu a década de 70, qual a diferença daquela época para hoje quando falamos de música?
Barbieri: Os anos 60 e 70, foram anos de profundas mudanças sociais e políticas. Foi uma época revolucionária em muitos aspectos e naturalmente o rock, de forma espetacular, refletiu isto. As centenas e centenas de bandas deste período não estavam apenas tocando, elas estavam criando um estilo, discutindo a realidade e mudando os costumes deste período para sempre.

Hoje em dia raramente existe uma banda nacional ou mesmo internacional pesquisando algo novo e tomando riscos. A meu ver, a realidade é que, independentemente do gosto musical ou em termos de estilo o último artista nacional que criou algo realmente novo e sofisticado foi Arrigo Barnabé. Nos anos 70, no Brasil, a única banda que realmente estava inovando e ao mesmo tempo sintonizada com o que acontecia no mundo, foi Mutantes. Isto não significa que estou diminuindo a qualidade das nossas bandas do período! Muito pelo contrário! Segui de perto além de Mutantes, Terço, Som Nosso de Cada Dia, Terreno Baldio, Made in Brazil, Patrulha do Espaço, Peso, Casa das Máquinas e muitas outras, todas excelentes.

3 - Você que trabalhou com nomes importantes do Rock Brasileiro, indicaria alguém hoje que pudéssemos dizer que futuramente será um destaque na música Brasileira?
Barbieri: Uma vez, muitos anos atrás, aqui em Londres, bati um papo com o então editor chefe da lendária revista Metal Hammer. Na conversa perguntei para ele:
“Uma vez que o senhor está no topo da coisa, recebendo centenas e centenas de pacotes semanais com material de bandas e sabendo de antemão que o rock é um grande camaleão, qual acha que será a nova tendência do momento? Que estilo está por vir?” Sua resposta foi:
“Meu filho, seu eu soubesse, montava uma banda e ficava rico!” 
Então, respondendo a sua pergunta, se soubesse quem é o grande nome da música brasileira, mais precisamente do rock brasileiro que fará sucesso, procuraria aproximar-me dele!
Tendo disto isto recentemente tem gente dizendo que Yohan Kisser filho de Andreas Kisser com seu projeto Lusco Fusco e também participando do projeto do seu pai o Kisser Clã, tem muito futuro pela frente. Aliás, como dizem “...filho de peixe peixinho é”. Eu fui entrevistado pelo Andreas & Yohan no programa Pegadas do Andreas Kisser na 89FM em 2015 e na ocasião o rapaz me pareceu bem eclético musicalmente. Só espero que ele não seja tão cabeça dura como seu pai!

Barbieri com Arnaldo Batista do Mutantes. (Foto Lido Valente. 1985)
4 - Ao se decepcionar com a política enquanto candidato, isso foi um fator importante para que você resolvesse ir embora do Brasil ?
Barbieri: Sim, como resultado do falecimento recente de Ricardo Zarattini, fiz este comentário no face:

“Faleceu hoje (15/10/2017) o companheiro Ricardo Zarattini, militante histórico da esquerda brasileira. Ricardo Zarattini em 1986 fez uma parceria comigo onde, imediatamente após a legalização do PCB, nós saímos juntos para concorrer nas eleições daquele ano. Ele para Deputado Federal e eu para Deputado Estadual (por SP). Já sabíamos de antemão que ganhar seria muito difícil, porque a ditadura da direita tinha tido 30 anos para mexer os pauzinhos e, entre outras coisas, mudar a lei eleitoral, criando o voto de legenda. De qualquer forma para mim foi uma experiência emocionante e ao mesmo tempo muito difícil. Algumas portas se abriram, mas muitas se fecharam! Depois destas eleições minha desilusão foi muito grande, tanto com alguns amigos como com a própria política e acabaria sendo uma das razões porque, a primeira chance que tive, saí do país. ”

5 - Durante todo esse tempo morando em Londres, qual a grande diferença daí pro Brasil e o que você destacaria como bom e como ruim na cena Inglesa? Pensa em voltar algum dia?
Barbieri: Cheguei em Londres, atravessando o Canal da Mancha em Calais na Franca em direção à Dover já na Inglaterra. Só tinha uma nota de 100 dólares que usei para pagar no barco pela travessia. Recebi de troco, já convertido, em aproximadamente 40 libras. Era tudo o que eu tinha! Cheguei preparado para dormir na rua se necessário. Tive sorte e fui ajudado por um exilado político chileno comunista. Só aí entendi porque é que eu fui parar no PCB! Tudo tinha sua razão de ser! Estou com 65 anos e até os 50 a coisa foi muito difícil. Por um período fiquei ilegal no país.  A coisa melhorou bastante quando consegui meu passaporte italiano e mais ainda quando consegui minha cidadania britânica. Hoje até que enfim, não sou rico, mas, também não tenho mais problemas financeiros e, portanto, vivo com dignidade. No momento, estou aposentado e posso dedicar-me apenas à minha vida conjugal, à busca do saber e todo tipo de atividade artística. Para mim, a diferença, os motivos de estar aqui em Londres são: econômico, segurança, estar longe da minha família (família para mim é só competição e problema), estar mais perto do futuro, estar no topo do mundo, liberdade individual (posso ser criança para sempre) e por aí vai...   Quanto ao Brasil nem vou falar nada.... Todo mundo sabe que o sistema político e social está muito ruim e as pessoas estão cada vez mais egoístas, consumistas e desumanizadas. O povo de São Paulo a cada ano que visito fala mais “caipira” e a cidade está mais feia e descuidada com o centro tomado por uma legião de zumbis drogados e comandada por mais um prefeito cheio de atitudes populistas, como os anteriores, saqueando os cofres públicos com a única intenção de ser Presidente. Mas, voltando a cena inglesa, depois do chamado Britpop dos anos 90, fraquinho por sinal, nada aconteceu que me surpreendesse. Na minha opinião um dos momentos mais emocionantes foi a volta para apenas uns shows no O2 Arena da banda Led Zeppelin em 2007. Infelizmente não pude assistir pois os ingressos esgotaram-se em apenas 10 minutos (e custavam uma fortuna). Uma vez um amigo de uma gravadora aqui de Londres, frustrado me confidenciou que “hoje em dia para gravar aqui em UK o artista ou tem que ser gay, black ou formado por garota ou garotos tipo bimbo, na parada musical só dá dance, happers, girl bands e boy bands! Comparado com isto até o Britpop era bom!”. Sinceramente, hoje em dia a Suécia e os países escandinavos estão dando de 10 nos ingleses! A BBC virou uma TV de puro saudosismo e só é salva pelas transmissões ao vivo dos festivais de verão com destaque para o Festival de Glastonbury. Quanto a voltar a viver definitivamente no Brasil, acho difícil, se ganhasse na loteria talvez achasse uma praia maravilhosa, com acesso à Internet banda larga para viver todo dia olhando para o mar e estar ao mesmo tempo conectado com o mundo! 

6 - Mesmo morando fora do Brasil, existe uma conexão muito forte entre você e com o que é feito aqui no Brasil, inclusive de bandas que tiveram seus trabalhos divulgados no exterior e com Bandas que foram tocar em Londres. Conte-nos um pouco sobre isso.
Barbieri: Não sou religioso, mas, dizem que Jesus disse que “aquele que vir na minha direção eu irei me encontrar com ele no meio do caminho”. Eu acredito nesta ideia. Todas as bandas que bateram na minha porta eu, na medida do possível, ajudei. Logo que cheguei em Londres passei a ser Correspondente Internacional da Revista Dynamite pertencente ao meu amigo André “Pomba” Cagni. Além de cobrir shows, exposições, lançamentos de bandas, tinha também minha coluna chamada London Calling e, nesta coluna, mencionava sempre meu endereço e logo, literalmente bandas começaram a bater na porta e a dormir pela sala e corredor. Cheguei até a ter um livro de visitas onde o povo deixava seus agradecimentos e até caricaturas. Durante os anos, aprendi a perceber e respeitar as sincronologias, ver aquelas coincidências incríveis que acontecem. Músico que você à vezes nunca viu nem ouviu entrando na sua vida. São como redirecionamentos no meu destino. 

Na minha vida, não planejo nada. Quer dizer, meu plano é não planejar e deixar acontecer. Meu barquinho está navegando livre e estou mais preocupado com a viagem do que com o destino final. Minha esposa, tem os pés mais no chão e me ajuda questionando minhas atitudes. Ela diz: “Você faz tudo de graça e por isso ninguém dá valor! Estas bandas brasileiras são todas iguais! Só lembram quando precisam! Usam e depois esquecem! Quantas vezes você já se decepcionou e sofreu por isto? ”
A minha resposta é sempre a mesma: “Eu não tenho escolha! É o meu destino! Se fechar a porta para todo mundo vou virar um ermitão! Não podemos fazer as coisas esperando nada! Tudo tem o seu tempo! O que é meu de direito um dia chegará! ”

A verdade é que tudo está chegando e cada vez mais rápido! Este convite para ser entrevistado aqui é uma prova disto! De que qualquer forma, aprendi que ser bom não é ser bobo! Tenho sido muito mais criterioso nas minhas escolhas!


Como disse recebi muito músico aqui em casa, entrevistei e assisti vários shows de bandas brasileiras que pisaram aqui na terra da rainha, mas, gostaria de destacar que sou muito orgulho de ter produzido o show da banda Korzus no The Marquee Club em 1992 e de que, algumas vezes colaborei assessorado a banda Vulcano quando estiveram tocando por aqui.  

Barbieri gravando no lendário estúdio Abbey Road. (Foto:Marcelo Cavalcante)


7 - Quase impossível falar de você e não lembrar do "Livro Negro do Rock". Fale-nos sobre ele e o que ele representa na sua carreira?
Barbieri: Como tenho um website, que já existe por mais de 10 anos, chamado Barbieri Memórias do Rock Brasileiro (www.celsobarbieri.co.uk), site que já passou dos 3 milhões de visitantes e tem centenas e centenas de artigos escritos por mim, acho que escrever um livro    acabou sendo uma evolução natural do meu trabalho.
Como sempre não programei nada. Como estava pesquisando sobre a história do porto de Santos pois tinha recebido um e-mail vindo de um músico contando-me que ele se interessou por rock, ainda garoto, quando escondido da família, ia ver as bandas que tocavam nas boates que ficam nas proximidades do porto de Santos, entrei em contato com duas bandas santistas com quem já tinha trabalhado no passado: Vulcano e Santuário.  Numa conversa com Zhema, o líder do Vulcano fiquei sabendo que ele era um intendido sobre o oculto e muito influenciado pelos pensamentos de um mago muito controverso chamado Aleister Crowley.

Curiosamente, paralelamente, também estava pesquisando um pouco sobre Raul Seixas pois, durante a minha vida roqueira tinha cruzado com ele algumas vezes e queria contar estas memórias no meu site. Acontece que pesquisando sobre a sua Sociedade Alternativa descobri que, curiosamente, ela era também era influenciado por Aleister Crowley.
Obviamente, vi a “sincronicidade” em ação, obedeci e fui pesquisar Aleister Crowley. Bom, nem preciso dizer que, quando percebi, estava escrevendo O Livro Negro do Rock.
Infelizmente, a realidade do Brasil é sempre pobre. O artista se quiser ver seu projeto lançado, tem que pôr a mão no bolso e lançar ele mesmo! Em conversa com o meu editor, em resposta ao meu desabafo quanto a situação difícil do escritor brasileiro, ele apesar de dizer que o mercado editorial estava péssimo para todos, tanto escritores como editoras, tentou me incentivar dizendo que “muitas vezes um livro pode não vender bem, mas, em contra partida ele poderá muito bem abrir portas para novas e inesperadas oportunidades profissionais que como resultado poderão até lhe trazer muito mais respeito.
Verdade, a tiragem do meu livro foi pequena e está quase no fim, mas, o respeito que recebi foi muito mais do que o que recebi pelo meu trabalho de mais de 40 anos à serviço do Rock Brasileiro.

8 - Diante das milhares coisas que você fez e faz, ainda tem alguma coisa que gostaria de fazer?
Barbieri: Gostaria de ter minha música usada numa trilha sonora de filme ou comercial. Gostaria de um dia conseguir apresentar-me ao vivo tocando guitarra ou piano executando meu material autoral. Gostaria de atuar num filme num papel emocionalmente intenso. 

9 - Qual você acha o melhor, o Rock Inglês ou o Americano?
Barbieri: Historicamente o Rock Inglês foi melhor, mas não podemos esquecer que eles foram inicialmente papagaios copiando e se apoderando do Blues norte americano. A análise torna-se complicada porque se não fossem os ingleses talvez não conhecêssemos Mud Water, B. B. King, Chuck Berry, além de muitos outros gênios da guitarra.

Os Beatles e os Rolling Stones literalmente colocaram os ingleses no mapa, mas, cabe lembrar que em 1969 o Festival Woodstock, em áudio e filme, com suas bandas a grande maioria norte americana, influenciaram toda uma geração.

Foi no começo dos anos 70 que o Rock Pesado afirmou-se com a chegava de uma trilogia de bandas poderosas: Led Zeppelin, Black Sabbath e Deep Purple (Eu sei! Tem muito mais!). O Roque Pesado ajudou desviar ainda mais o foco de atenção para a Inglaterra.

Hoje em dia a coisa está bem diferente e já faz tempo que meu único controle de qualidade é se a banda é boa ou ruim. Infelizmente muita gente no Brasil confunde qualidade com estilo! Eu escuto tudo quanto é estilo de rock! Meu único padrão é competência! Quando se trata de banda brasileira, já ganha de cara um ponto só por ser uma banda nossa. Sempre escuto qualquer banda brasileira do ponto de vista do produtor imaginando como ela seria bem melhor se tivesse acesso à bons estúdios, técnicos e o mesmo suporte que recebem as bandas grandes na Europa e Estados Unidos.


 10 - Sendo um cara com tantas histórias para contar, quando é que teremos sua biografia?
Barbieri: Para ser honesto e contar uma biografia, teria que abrir o coração e contar não só os bons momentos como também as dificuldades, mal entendimentos e amarguras porque passei: Músico famoso roubando microfone do teatro durante o show. Dono de loja se achando dono das bandas e sabotando o meu show. Bandas achando que tinham 400 pessoas num lugar que só cabiam 200. Shows acabando e na hora de fazer o acerto com a banda e assim, pegar a minha comissão, ser tratado como um abutre ladrão. Músico sacaneando músicos de outras bandas ou seus próprios músicos na minha frente. Músico ligando para dizer que não vai tocar no show que produzi porque ele não toca em show de comunista. Bandas ficando hospedadas gratuitamente na minha casa por uma semana, mas negando depois uma música para acrescentar na coletânea que estava montando. Empresário de banda que vai tocar no meu projeto ligando em meu nome para centenas e centenas de músicos para comparecerem no dia do show que estou produzindo de sua própria banda para assinar contrato comigo, criando o maior caos no teatro, etc.

Bom, a lista é grande, mas, infelizmente tenho boa memória. Alguns destes maus agradecidos, desonestos ou simplesmente irresponsáveis já morreram e não quero ficar remexendo este passado. Como John Lennon, prefiro dizer que não acredito mais na palavra de ninguém, só acredito em mim e na minha esposa Andrea. O sonho acabou! Hoje meço todo mundo só pelas suas ações! Só palavras são para políticos! Juro, sempre, na medida do possível, procurei completar minhas palavras com ações. Perdoem-me se pareço pretencioso ou arrogante, mas, tem gente que fala, eu faço!
Por estas e outras, acho um grande desafio escrever minha biografia. Aliás, se procurarem e juntarem tudo que já escrevi e também no vídeo entrevistas dadas acho que já daria uma boa biografia. Se fizessem gostaria que o nome fosse: “Barbieri: O Sonho do Roqueiro Comunista!” 

Caro Luis Carlos, agradeço de coração pela oportunidade dada e aproveito para parabeniza-lo pelo teor das perguntas!  Pergunta inteligente é assim, a resposta quase vira um livro! 

quinta-feira, 26 de outubro de 2017

CULT FM, em nome do Rock and Roll carioca.

Quando falarmos de rádio no Rio de Janeiro, a Cult FM é a prova cabal de que persistência, muito trabalho, dedicação e amor pelo que faz, é a chave-mestra pra quem quer fazer alguma coisa com competência. Contando com uma excelente equipe, entre eles, Jamari França, um cara que pode ser considerado uma lenda no Jornalismo musical.
Batemos um papo com Andre Cult, Jornalista, DJ, e um dos responsáveis pela criação da Cult FM.

Entrevista por Luis Carlos
Fotos: divulgação.



1 - Quando é que pintou a ideia de criar a rádio?

Em 2008 eu comecei a fazer estágio na web rádio da faculdade, onde conheci o DJ Luck Veloso, que trabalhava lá. Fazíamos um programa legal chamado "Vinyl", com curiosidades sobre um disco clássico e a execução dele na íntegra. Era um oásis na programação, que era voltada pro pop da época. Um dia a rádio acabou, eu me formei e o Luck continuou trabalhando, mas em outro setor. Até que um dia ele teve a ideia de montar sua própria web rádio e me chamou. Como ele já tinha um site chamado CulturALL, resolvemos montar a rádio do site, que seria a Cult FM (FM significa For Masses). No início usávamos um computador da própria faculdade como servidor, se alguém desligasse a máquina de madrugada, sairia do ar (risos). Mas aí fomos evoluindo e chegamos ao que é a Cult hoje. 


2 - Em tempos em que tudo tem sido feito na internet, inclusive de algumas mídias que tem desistido do formato impresso, como é que vocês enxergam essa nova perspectiva na comunicação ainda que exista no Staff da rádio com pessoas de diferentes gerações e que naturalmente passaram por situações diferentes na carreira?

É complicado porque não dá pra imaginar o futuro. Temos que nos reinventar sempre. O rádio segue vivo, mas não necessariamente no FM. Muita gente curte web radio, outras spotify... outros ouvem podcasts, que nada mais são do que programas de rádio para ouvir a qualquer hora. E claro, tem os que ainda ouvem emissoras tradicionais. O bom é que a mesmice das FM`s ajudou a fazer com que muita gente procurasse novidades na web, mas muitos ainda preferem a surpresa da música que toca em seguida e uma pessoa dando informações sobre o artista. E é aí que entramos. Não somos um player no shuffle, pensamos no playlist todo. E agora é possível nos ouvir pelo celular em qualquer lugar, o que nos ajuda bastante. Sobre a variedade da equipe, o mais antigo com a gente é o jornalista Jamari França, que descobriu as principais bandas dos anos 80, mas está sempre se atualizando. Ele conhece mais bandas novas que muito garoto aí que está até hoje chorando o fim de uma rádio FM carioca que tocava Nickelback de hora em hora.

Luck Veloso e André Cult, criadores da Cult FM.

 3 - O nicho principal da Rádio é só o Rock? Haveria alguma possibilidade de ela abrir espaço para outros estilos?

Se você ouvir a rádio na programação normal, vai ouvir basicamente rock, blues, alguma coisa de eletrônico, bandas independentes. mas em programas específicos, variamos e damos espaços para outros estilos sim, sendo bons, claro rs. 

4 - Sendo uma rádio carioca, inclusive de uma cidade que foi berço para muitas rádios e programas históricos e também de bandas que se tornaram icônicas, como enxergam hoje o cenário carioca e quais as perspectivas que a cidade oferece para quem trabalha em uma rádio?

O Rio tem muitas bandas novas boas, mas tá faltando alguma coisa pro público tirar a bunda da cadeira e procurar novidade ao vivo. Tem bandas novas com 50 mil curtidas no Facebook e 50 pessoas no show, incluindo os convidados. Você é das antigas e sabe que há uns 15 anos atrás, íamos a shows em casas como Ballroom, Garage, Lonas Culturais, e viviam sempre cheias. É muito triste isso. Sobre o que a cidade oferece pra quem trabalha em uma rádio, nem pensamos nisso. A rádio é web, então temos ouvintes em várias partes do mundo. Se dependermos do Rio, estamos ferrados rsrs. 

André e Cleber Jr., a Cult Fm durante a cobertura do rock in Rio.
5 - Qual entrevista preferida e aquela que não ficou legal?

Vou citar uma que eu fiz com o De La Tierra no Rock in Rio. Foi a que mais gostei de fazer, porque eu tenho um programa voltado pra rock feito na América Latina (Sonidos, todo domingo às 21h30). Foi ótimo principalmente por eu já conhecer os trabalhos anteriores dos músicos. Os outros jornalistas que estavam lá só conheciam o Sepultura, do Andreas, e ainda forçaram a barra fazendo as perguntas em inglês. Eu falei em espanhol o tempo todo e os caras se soltaram mais, foi bem legal. Uma que eu não achei muito legal foi feita por e-mail com um baterista famoso brasileiro. Só resposta padrão, do tipo "vamos arrebentar no show". Espero um dia poder entrevistá-lo pessoalmente. 


6 - Vi que mais uma vez vocês fizeram a cobertura do Rock in Rio. Pra vocês, qual a importância do evento pra música Brasileira?

É sempre muito gratificante cobrir o Rock in Rio! O evento é importantíssimo pra cidade. Claro que tenho minhas críticas também, como todo mundo. Acho que podiam arriscar mais no line up e o dia do metal fez muita falta esse ano, mas esperamos que ele siga firme e forte em sua cidade natal! Ah, é bom lembrar que no Rock in Rio focamos nas coberturas dos palcos alternativos: Rock District, Rock Street, Palco Sunset...o Palco Mundo é um detalhe pra nós.


7 - Não somente falando em grandes eventos, a Cult também faz coberturas de eventos menores?

O que tem som legal nós cobrimos. Da banda que toca no boteco até a Cidade do Rock. Mas é claro que, por ser um trabalho independente, nem sempre vamos em tudo porque termos compromissos particulares, seja familiar ou no trabalho que paga as contas. 


Luck e André como DJ`s no show do Suricato.
8 - Onde e quem são os maiores ouvintes da Rádio?

Tem muita gente do interior que ouve a gente, principalmente em Minas, graças ao nosso fotógrafo Rogério Bezerra (conhecido como Gentleman), que mora na Zona da Mata.  Muita gente do Rio, claro, que é onde entregamos flyers e fazemos uma divulgação mais intensa... e temos ouvintes espalhados pelas outras capitais. É bem comum aparecer também gente escutando dos EUA e de alguns países da Europa e da América do Sul, mas são minoria.


9 - Deixem um recado final para os leitores da Arte Condenada.

Um abraço pra todo mundo que está lendo e ouçam nossa programação em radiocultfm.com

Vida longa ao Arte Condenada e #voltaBeMagic hehe.

segunda-feira, 23 de outubro de 2017

MARCO DONIDA, A inspiração por trás do Matanza.

O Matanza é uma banda reconhecida e grande parte disso se deve a Marco Donida, guitarrista e um dos criadores do grupo carioca. Donida deu um tempo nos palcos, mas continua seguindo firme e forte com o grupo na hora de compor e estar em estúdio gravando.
Vamos ao papo com essa fera!

Entrevista por Luis Carlos


1) Donida, você começou o Matanza com o Jimmy em 1996. Lembro de shows de vocês no começo, aliás, você vivenciou bem aquela cena alternativa na década de 90 no Rio de Janeiro. Para você, qual a diferença da cena daquela época pra agora e o que isso mudou na carreira do Matanza?

A vida antes da internet era outra coisa...  Acho que a maior diferença é que você precisava sair de casa se quisesse ter acesso à alguma informação. Era "obrigado" a frequentar shows, conhecer pessoas e daí nasciam as cenas. Havia contato humano. Nada se resolvia com clics e downloads. Nos anos 80, eu frequentava shows no Caverna II e vivia nas lojas de Rock. Tudo era difícil de conseguir e por isso dava-se tanto valor. Hoje em dia nada mais é "especial" porque não há mérito no que é fácil.


Donida tocando com o Matanza. (foto: Fernando Pires)
2) Curiosamente o Matanza é uma banda que tem um apelo popular bem forte, e ao mesmo tempo está longe de ser comercial como muitas bandas contemporâneas ou que vieram depois de vocês. A que se deve isso?

Acho que se deve ao conjunto das influências que nos orientam. O Matanza não é uma banda extrema, mas também não é "farofa". A base do nosso som é Motorhead, Slayer, Exploited, Ramones... Música atemporal. Além disso, acredito que a aceitação do Matanza se deva às letras serem em português e terem uma abordagem crítica. Há muito mais espaço para misantropia do que qualquer outro tema em nosso trabalho.


3) Mesmo não sendo uma banda de Metal muitos fãs do estilo apreciam o som feito pelo grupo. A que se deve isso? Aliás, alguns integrantes são fãs, tocaram e tocaram em Bandas de Metal, certo?

O Metal é a pedra fundamental da minha vida. Você encontra Thrash Metal em todos os álbuns do Matanza, sem exceção. A nossa proposta inicial não era essa, na verdade.  Era para ser uma coisa muito mais The Cramps e Rev. Horton Heat mas se você não for 100% honesto com a sua obra, ela fatalmente não irá muito longe. 

Donida com o Matanza.
 4) Por que a decisão de ficar só compondo e gravando e não fazer mais shows com o grupo?
Foi uma forma de resolver conflitos internos que surgiram sem que a banda tivesse que encerrar as atividades. E também porque a vida na estrada é mais atraente para uns do que pra outros. Eu decididamente prefiro ficar em casa. Miro no exemplo do Brian Wilson que disse aos Beach Boys: Vão vocês na tournée, me deixem aqui no estúdio trabalhando nas músicas". 


5) Você também tocava no Enterro com o China, ex-baixista do Matanza. Como está o Enterro hoje?
O ENTERRO existe desde 2005. Somos um quarteto agora e estamos gravando o terceiro álbum. Está mais Death Metal do que Black, como era no início, mas continua expressando nosso nojo por todas as religiões do mundo. FUCK YOU, JESUS CHRIST!!!!


6) Existem muitos músicos que são fãs de Metal, porém, estão tocando outros estilos para ter que sobreviver como músico em um mercado Brasileiro onde o estilo não é valorizado. Você concorda com isso ou acredita que o músico deve acima de tudo fazer aquilo que gosta?
Eu acho que se deve sempre fazer o que gosta, mas nada impede que um fã de Metal goste e se divirta tocando outros estilos. Inclusive, é algo muito salutar! Eu, por exemplo, tenho MANO NEGRA tatuado no braço e é uma banda francesa que não tem nada a ver com Metal. 



7) O Matanza é uma banda que atrai fãs muitos jovens, porém, você já possuem mais de 20 anos de carreira. Esses fãs acompanham o trabalho do grupo até hoje? Durante esse tempo, tem existido uma renovação dos fãs?
O fato do Matanza ter sempre casa cheia em seus shows se deve exatamente à essa renovação do público. Há muitos adolescentes que descobrem Matanza e se tornam fãs, mas quem ia aos shows há vinte anos, em boa medida, ainda vai. Muitos se casaram e hoje levam seus filhos, o que representa duas gerações de fãs. Isso é a coisa mais do caralho que existe!


8) Acredito que o Matanza atraia seu público pela simplicidade com que vocês produzem musicalmente. Você se imaginaria fazendo futuramente algo inusitado com o grupo? Como por exemplo, gravar um acústico ou algo com orquestra?
Algo radical, como um acústico ou orquestrado, definitivamente não. Mas também não há nenhum tipo de cerceamento criativo. Vamos lançar agora em outubro um clipe/curta-metragem chamado "QUANDO A LUA CHEIA SAI". Nele apresentamos duas músicas: uma nova chamada "NA LAMA DO DIA SEGUINTE" e uma regravação de "SANTÂNICO", que é do nosso primeiro álbum. Nessa, convidamos um pianista fenomenal, o Humberto Barros. É algo inusitado, mas nada que possam dizer que estamos nos traindo. Gostamos do que fazemos e nosso objetivo é desdobrar esse universo desenvolvemos ao longo desses 20 anos, não pular para outro. Coerência é uma coisa muito importante pra nós e acredito que seja pra todo mundo.


9) No começo de carreira o grupo era chamado de "Country core". Falando em Country, o que você acha sobre o que é produzido aqui no Brasil?
Não existe Country no Brasil, existe sertanejo e eu não gosto, não ouço, não quero saber. Essa estória de Country Core foi uma coisa que saiu do controle. Nos coube no primeiro álbum, apenas, mas as pessoas adoram um rótulo e temos que lidar com isso 

quinta-feira, 19 de outubro de 2017

VULCANO, Os portais do inferno continuam abertos.

Quando se trata de pioneirismo do Metal extremo no Brasil o VULCANO é a primeira banda a ser lembrada e reverenciada, antes mesmo de nomes como Dorsal Atlântica, Korzus ou Sepultura. Os santistas estão na atividade até hoje, passando por diversas formações e enfrentando todas e quaisquer adversidades que uma banda de Metal sofre no Brasil, mas, mantendo acima de tudo um legado baseado na honestidade e respeito ao estilo e aos seus fiéis fãs, sem se vender a qualquer nova fórmula ou modismos passageiros.
Depois de décadas como aquele garoto que ouvia o live nas alturas ma década de 80, estou eu aqui hoje entrevistando os mestres do Metal extremo Brasileiro, então, que os portais do inferno se abram para o Arte Condenada porque a entrevista agora é com o Vulcaaaaaaaaaaaaaanooooooo!!!

Entrevista por Luis Carlos
Fotos: Divulgação


O Vulcano foi formado em 1981. Como é ser a primeira banda de Metal extremo do Brasil?

ZHEMA - É algo comum. Não há nada de diferente. Continuamos na batalha do dia a dia procurando produzir novos álbuns, correndo atrás de shows, subir nos palcos para mostrar às novas gerações nossa música, etc. Etc., de modo que ser pioneiro ou não nada acrescenta a nossa carreira. Precisamos produzir porque gostamos daquilo que fazemos e antes de tudo somos fãs de Metal. Não vivemos do passado e sim do presente !!!!!!!!!!

Falando em Metal extremo, como vocês veem o estilo atualmente?

LUIZ CARLOS LOUZADA - Como sou aficcionado por Metal Extremo, vejo o Brasil como um dos grandes celeiros deste gênero, já que temos bandas excelentes com musicos absurdamente bons lançando trabalhos de qualidade compativel com qualquer banda gringa, tanto no Rio Grande do Sul quanto no Amazonas, ou seja é um estilo de música onde temos representantes em praticamente todos os Estados do país. Tanto é verdade que há 13 anos atuo com a Violent Records, tendo lançado 60 albuns neste periodo, e todos voltados ao cenário da música extrema!

Vulcano em sua nova formação. (Foto: divulgação.)

Hoje em dia muita Banda considerada antiga é reverenciada pelos fãs mais novos e muito disso está em novos grupos que emulam a sonoridade daquela época. O próprio Vulcano é uma referência quando falamos de bandas Brasileiras. Vocês acham importante esse “resgate old school” pelo que foi feito ou acham mais importante seguir em frente, ainda que não façam um tipo de som moderno como Metalcore?

LUIZ CARLOS LOUZADA - Acho muito válido esse lance de alguns grupos novos, lançarem albuns com a sonoridade típica dos anos '80, seja no Metal Extremo ou mesmo no R'n'R. Há espaço para todos, tanto as bandas que se enquadram com um som mais atual, quanto as mais retrô, afinal o importante é tocar, lançar trabalhos bacanas e, se existirem pessoas que se identifiquem com o que tá rolando, ótimo. O fato é que só com bastante perseverança os grupos terão longevidade, pois inúmeras bandas da cena underground desistem da carreira, e acabam esquecidos, muitas vezes sem terem um album oficial lançado.

Diante de inúmeras formações, a atual é a melhor ou fica difícil escolher uma formação que acabou sendo adequada à época?

 ZHEMA – Eu penso que a formação atual da banda sempre será a melhor caso contrário é preciso mudar novamente até achar a “melhor”. O Vulcano teve várias formações, cada uma delas contribuiu para o crescimento da banda, algumas não funcionariam mais no Vulcano de hoje, mas na época era a melhor. 

Zhema (foto:Luciana Pires)
O Vulcano já iniciou uma carreira diferente quando lançou seu primeiro disco sendo um ao vivo. Por que isso aconteceu? 

GERSON FAJARDO -  O Heavy Metal sempre foi concentrado nas grandes capitais principalmente São Paulo e Minas Gerais ...e os selos da época se preocupavam e focavam nas principais bandas que surgiam dentro desse núcleo...nós somos uma banda nascida no litoral e não conseguíamos entrar  e por mais que tentássemos não recebíamos  a  devida atenção. Por isso surgiu a idéia,se não entramos pelo centro, então vamos entrar pelas beiradas. Ai surgiu o Live... lançado ao vivo com nossos próprios  recursos no interior de São Paulo, em Americana.           

 ZHEMA – Era uma época em que conseguir shows em São Paulo capital era muito difícil porque o circuito era fechado, sendo do Litoral tivemos que conseguir nosso público no interior Paulista e Norte Nordeste do Brasil. Então se São Paulo não queria nos ver, gravaríamos um álbum ao vivo e pelo menos iam nos ouvir. Nos dias de hoje um DVD resolveria isso facinho, não é? (risos)

Além disso, outras peculiaridades foi ter em sua formação um baterista que ficou reconhecido por um Baterista que fez parte do Charlie Brown Jr. Ainda tem contato com ele? Parece que se tornou evangélico.

CARLOS DIAZ - Não temos nenhum contato com ele.

Luiz Carlos (foto:Luciana Pires)
Sobre as experiências de turnês pelo exterior. Contem-nos nos como foram essas gigs e se existira a possibilidade de fazer uma pelo Brasil algum dia.

CARLOS DIAZ - Uma turnê pelo exterior demanda principalmente disponibilidade, não só para estar em turnê, mas também para armar toda a logística, como temos nossos trabalhos regulares em horários comerciais, dependemos das nossas férias para largar tudo aqui e meter o pé na erada. Em função disso sempre que saímos do Brasil estamos com sangue no olho pra fazer com que tudo e principalmente os shows mostrem o que realmente é o Vulcano, que toca com garra e muita paixão pelo som que faz. Normalmente as GIGS na gringa são cheias de metalheads mais jovens e também do pessoal que já curte o Vulcano desde os anos 80, tocamos desde locais enormes até em Pubs onde nem palco tinha, o que pra nós não faz a menor diferença, pois tendo um som, um bar e gente pra curtir o que fizermos tá excelente!!!! Sobre turnês no Brasil, além da dificuldade em função da nossa extensão geográfica, geralmente os shows só se viabilizam durante os finais de semana, isso por si só já inviabiliza uma turnê brasileira, DAY OFF É CARO!!!!!

Muitos lembram do Stress e da Dorsal pelo pioneirismo, falam do Sepultura por ter levado o Metal Brasileiro para o mundo e ao meu ver, muitas vezes o Vulcano parece não ser tão reconhecido como deveria. O fato da Banda não ser de uma capital tem alguma influência?

GERSON FAJARDO - Muitos fatores poderiam ter causado isso principalmente porque o Brasil nunca foi o Pais do Rock , tudo aqui sempre foi muito difícil...éramos recém saídos de uma ditadura militar com todos os acessos de fora negados, a cultura Rock aqui sempre foi vista como subversiva e tudo que chegava aqui vinha muito atrasado e isso tudo contribuiu muito para que a nova musica..que vinha da Inglaterra e da América a New Wave of British Heavy Metal fosse muito dificultada por aqui e tudo para nós era muito difícil ''tinhamos que tirar leite de pedra para receber e mandar material. Mais vejo tmbm que o Vulcano sempre teve seu espaço, mesmo  com todas as dificuldades até por sermos também uma banda do litoral já era uma banda muito cultuada e já tinha sua identidade e seus seguidores, digo isso com propriedade porque antes de ser um musico do Vulcano em 1982 eu já era fã.Então eu acho que o mérito do Vulcano ja estava firmado. Com tudo , todos tem a sua hora. Hoje talvez estejamos colhendo aquilo que sempre plantamos com um pouco mais de reconhecimento.

Arthur (foto:Luciana Pires)

 ZHEMA – Na minha visão isso se deve pelo fato do Vulcano ser uma banda de Metal (muito) Extremo para os anos 80, nós estávamos um tanto fora do estilo de Metal palatável para a época. A maioria das bandas compatriotas naquele tempo se preocupava em soar igual à bandas Americanas e Europeia, então isso era palatável. Vulcano não! Sempre procurou ser original em suas composições.

Naturalmente quem curte o Vulcano é aquele público mais fã de Metal extremo, seja Thrash, Death ou Black Metal. Sobre essas inúmeras divisões dentro do estilo, o que vocês acham disso? Grande parte do radicalismo está dentro do que é feito no Metal extremo. Por que isso?

LUIZ CARLOS LOUZADA - Normalmente, quem ouve Metal Extremo, não tem paciencia para ouvir algo "light", então, é comum existir uma barreira que isole de tudo o que não é extremo. Não vejo problemas com subdivisões de gêneros, pois isso facilita bastante o assunto sem que as pessoas tenham que parar para ouvir e se decepcionarem. Se eu quero ouvir algo novo na linha Death Metal, não vou ficar perdendo tempo ouvindo inúmeras bandas de vertentes diferentes. Vou logo na vertente que estou afim de sacar. Mesmo eu sendo um cara que ouço de tudo ligado ao Rock, se num momento eu quero ouvir um bom grupo de Grindcore, pego logo um cd do Archagathus (do Canadá) ou um do Sengaya (de Santa Catarina) e o assunto tá resolvido, saca?

Assisti o DVD de vocês, aliás, achei excelente. Como foi a repercussão desse trabalho?

CARLOS DIAZ - Interessantíssimo realmente, eu mesmo quando dei minha entrevista aos diretores Rodiney e Wladmir não tinha retornado à banda, o convite para o retorno ao Vulcano veio no meio do processo de produção do filme. Nós assistimos o filme pela primeira vez junto ao público, sendo assim o que está nele é a visão que os diretores quiseram passar, não tivemos  controle algum sobre o que entraria mas algumas pessoas ficaram chateadas por partes que não entraram, outros acharam que faltou reconhecimento da banda à algumas pessoas, mas enfim o filme é sobre o Vulcano não "do" Zhema ou "do" Vulcano. Mas a grande maioria elogia a história que foi contada e o fato do filme entrar na grade da Music Box Brasil fez com que a banda tivesse uma visibilidade muito grande, até o dono da padaria onde vou me falou que viu o filme da minha banda, hehe.

Existe algum disco preferido ou aqueles que vocês menos curtem?
  
ZHEMA – O Vulcano tem dois álbuns que não são meus preferidos, Who are the True e Five Skulls and one Chalice, um pelo gosto pessoal e outro pelo resultado final, mas não deixam de serem bons álbuns.

O que podemos esperar do Vulcano para o futuro?

GERSON FAJARDO - O que o fã deve esperar do Vulcano sempre será aquilo que ele acreditou e espera ouvir.
O  Vulcano nunca decepcionara os seus fã porque fugimos de rótulos, misturas e inovações . Temos uma identidade própria, antes de sermos músicos somos fãs e sempre pensaremos em nossos fãs. O Heavy Metal tem que ser puro e honesto, e é nisso que o Vulcano acredita. O que vocês podem esperar do Vulcano será sempre o melhor de um disco de Heavy Metal , porque é a ele que nós nos dedicamos


Zhema – Muitos shows e novos álbuns, só não esperem em nossa música, misturas, virtuosidade e modernidade – esperem o mesmo que esperariam em um novo álbum do Motorhead e AC/DC por exemplo.

Living Metal, divulgando o verdadeiro Heavy Metal !

Tão pouco tempo de carreira mas a convicção de quem faz isso a bastante tempo, é o que move bandas como o Living Metal, grupo formado ...