quinta-feira, 11 de janeiro de 2018

SIEGE OF HATE, 20 anos de muito barulho !!!

Conheço muito bem o trabalho do Siege of Hate, aliás, tão bem que no tempo em que eu era baterista da Statik Majik e faria uma turnê pela Europa em 2013, foram eles que estiveram nessa gig comigo tocando pelos melhores e mais toscos palcos na estrada passando por muita diversão e adversidades, e onde eu pude ver um Grindcore poderosíssimo desse grupo oriundo de Fortaleza/Ceará, executado por músicos de primeira linha. 
Bati um papo com eles para falar do momento atual da carreira e da celebração de 20 anos de atividade, e claro, do lançamento do lançamento do livro onde eles contaram um pouco da vida do grupo pela estrada. Vamos ao papo !
Entrevista por Luis Carlos


1 – Recentemente saiu o livro “Rota de Colisão”. Fale-nos um pouco dele.
Bruno Gabai - O livro surgiu de uma ideia do George Frizzo (baixista) de registrar a nossa primeira turnê na Europa (de 2009). Então, ele e o nosso amigo Lucas Gurgel, guitarra e vocal da Clamus, que estava de roadie nessa turnê, foram fazendo anotações que se complementavam. Só que, ao voltar da turnê, mesmo com contribuições de todos, não conseguimos evoluir no texto na velocidade desejada. Acabou que quatro anos depois já estávamos em turnê por lá de novo, com novas histórias para contar. Depois em 2015, pelo Brasil, e finalmente em 2016 pela América do Sul e abrindo para uma banda como o Extreme Noise Terror (junto com o Nervochaos e Desecration). Foram 4 turnês com experiências bem distintas, o que deu o tom que faltava no livro para contarmos sobre como é a vida em turnê de uma banda underground em cenários bem diferentes.

2 – O primeiro trabalho do Siege of Hate foi uma demo lançada em 1998 chamada “Return to Ashes”. Hoje o que significa o seu lançamento e qual a diferença da banda nessa época para os tempos atuais?
BG - O Siege of Hate (S.O.H.) surgiu como uma brincadeira, um "projeto Grind" paralelo de músicos de bandas de Metal (eu tocava no Insanity e o Amaudson Ximenes na Obskure) em uma época que o Grindcore andava esquecido. Só que esse projeto ficou tão legal, que resolvemos gravar uma demo e que, por sua vez, ficou muito bem gravada, teve uma excelente resposta do público Metal e HC e até influenciou muita gente boa que está na cena até hoje. Era uma homenagem nossa às nossas influências mais extremas, "old school", e por isso tem aquela pegada Metal em músicas Grind, sem compromisso, bem diretas. Com o fim do Insanity em 2003 e mudanças de formação (inclusive com a entrada do George, também do Insanity, no baixo), o Siege of Hate se tornou nossa banda principal, que passamos a levar mais a sério e de forma cada vez mais profissional, mas sempre mantendo as mesmas influências do início. Com a banda completando 20 anos, achamos uma boa ideia lançar essa versão comemorativa em CD Digipack da demo remasterizada, com muitas bônus e um encarte com vários registros da época. É uma forma de resgatar um pouco as origens e levar mais pessoas a conhecer as "raízes" da banda.


S.O.H. em Numberg/Alemanha. (foto: Luciana Pires)
3 -  “Subversive by Nature”, “Deathmocracy” e “Animalism” sãos os trabalhos lançados pelo grupo. Gostaria que falassem sobre cada um deles, sobre o que cada um representa na carreira do grupo.
BG - O "Subversive..." foi um grande desafio, pois estávamos num momento de tocar a banda em frente e lançar o 1o CD, mas na época de ensaiarmos para gravar o disco (lá por 2001), ficamos sem baterista. Para não atrasar mais, já que as músicas já estavam compostas, assumi as baquetas e ensaiamos eu, o George e o Ricarte Neto (2a guitarra e backing vocals) para gravar o instrumental. Gravei também minhas guitarras e o vocal. O batera que aparece na foto do disco (Thiago Feijó) entrou durante as mixagens e ainda fez vários shows conosco, mas saiu logo que o CD foi lançado, de modo que o show de lançamento, em dezembro de 2003, já foi com o Saulo Oliveira. "Deathmocracy" só veio 06 anos depois do 1º (em 2009), pois teve o split CD "Out of Progress" nesse meio tempo (em 2006). Esse split foi meio que uma sequência do "Subversive" (tendo inclusive músicas das sessões de gravação dele). Já no "Deathmocracy" considero que há uma evolução significativa, tanto em termos de composições, como de produção sonora e de capa. Em "Animalism" (2013), já havíamos acumulado mais experiência de shows, turnês, assim como de estúdio e acho que o CD é reflexo disso, o que considero nosso melhor trabalho, mais pesado, raivoso e maduro. Mas sempre mantendo o mesmo espírito e as influências do começo, assim como a temática das letras, envolvendo desde reflexões pessoais, até críticas à política, religião, intolerância, falsidade, guerras e outras mazelas da humanidade.  

4 – Como aborda o próprio livro e do qual eu mesmo vi de perto o trabalho de vocês, já que na época estava em turnê conjunta quando tocava na Statik Majik, ainda existe uma certa “”Glamourização” por parte de algumas bandas Brasileiras de que se tocar lá fora vai fazer algum sucesso no Brasil. Você acredita que é um tipo de experiência que vale a pena ou pode ser uma “furada”?
BG - Tocar no exterior não tem glamour nenhum, mas considero importante e válido para a carreira de uma banda. E conta não só para o currículo ou pra divulgação, mas principalmente pela experiência que se vive. Agora, na minha opinião, só vale a pena apostar em uma turnê no exterior se for em uma das seguintes situações: ou você se prepara pra gastar uma grana (passagens aéreas, aluguel de backline, transporte e uma reserva de sobrevivência), organiza e planeja bem tudo sozinho, tipo "do it yourserlf", faz contatos, agenda shows etc. e se prepara pra curtir a viagem e tocar em qualquer lugar, pra qualquer público, dormir onde der, vender material e ganhar alguns cachês pra tentar cobrir os custos; ou paga uma agência de "booking" pra fazer tudo isso pra você, mas desde que sua banda vá abrir pra uma banda maior, mais conhecida, que vai trazer público e boas condições de shows e aí valha o investimento para trazer retorno de divulgação para a banda. Mesmo nessas duas situações, ainda pode ser uma furada, pois sempre pode haver algum produtor picareta ou pode ser que a resposta do público não seja a esperada. Assim, em qualquer cenário, recomendo duas coisas: planejamento e baixa expectativa.

Livro lançado pela Banda que a história das turnês.
5 – Aliás, o Siege of Hate é um trio, mas por que na turnê Europeia de 2013 vocês tocaram com mais um guitarrista? (Lucas Gurgel).
BG - O Siege of Hate sempre foi um quarteto, até final de 2008, quando o Ricarte Neto foi morar no Canadá. Por isso, em 2009, fizemos a 1ª turnê na Europa como trio e o Lucas foi apenas como roadie. Quando voltamos para o Brasil, o George ficou na Alemanha ainda por mais de um ano. Nesse período, recrutamos o Fábio Morcego para o baixo e backing vocais e ficamos ainda como trio. Quando o George voltou, voltamos a ser um quarteto, com o Morcego passando pra 2a guitarra e essa formação ficou até pouco antes do lançamento do "Animalism", quando ele pediu para sair. Assim, quando fomos divulgar este álbum na Europa, convidamos novamente o Lucas para a viagem, sendo que ele colocou uma condição: "Só vou se eu tocar também". Daí, deu perfeito, pois completou a formação. Assim, somente oficializamos como trio em 2014, após concluídos os shows com o Lucas também aqui no Brasil.

6 – Falando em formação, recentemente o baterista Saulo saiu do grupo em uma polêmica que rendeu bastante críticas nas redes sociais da banda. O que podemos esperar para 2018? Nova formação e a continuação do excelente trabalho que o Siege of Hate vem fazendo?
BG - A polêmica que culminou com a saída do Saulo foi decorrente deste momento político atual, onde os extremismos de direita e de esquerda estão dividindo o país em dois e jogando as pessoas umas contra as outras (e enfraquecendo a população). A intolerância e o ódio estão descontrolados e as redes sociais são uma arma perigosa nesse sentido. As pessoas publicam, para o mundo todo (embora não se toquem disso) pensamentos, ideias, opiniões, como se estivessem numa mesa de bar ou dentro de seus quartos. Só que de forma escrita, fria e sem contexto. E como consequência, cada um lê, interpreta e julga do jeito que entende, com base nas experiências que têm ou que estão passando e julgam e condenam em um piscar de olhos pessoas que nem conhecem, sequer verificando a fonte ou a credibilidade da informação. Todos querem saber da vida dos outros e dizer o que e como os outros devem ser, mas não se enxergam. E no dia seguinte, estão vivendo suas vidas normalmente e não estão nem aí para o dano que podem ter causado a terceiros. Eu, por exemplo, que sou filho de judeu, que já produzi vários festivais beneficentes, entre outras coisas que fiz em quase 30 anos de underground, tive de engolir ser chamado de "bando de fascistas" por gente que nem me conhece ou o trabalho da minha banda. Essa experiência me fez repensar muita coisa sobre a banda, sobre o que desejamos tocar e que público queremos alcançar. 2018 será um ano de replanejamento, trabalhar em novas composições que já estávamos iniciando. Com essa mudança, decidi também deixar o núcleo da banda somente comigo e o George, inclusive para novas gravações (já que também sou baterista). Quando voltarmos a fazer shows, chamaremos algum baterista como convidado.

7 – Alguma previsão de um trabalho novo ou uma turnê pelo Brasil e/ou exterior novamente?
BG - Temos um álbum pronto para sair em 2018 (ainda com selos a definir), que será um EP ("Era do Ódio") + Ao Vivo. As músicas de estúdio foram gravadas ainda em 2015, no estúdio Family Mob (SP), com produção do grande Jean Dolabella (Ego Kill Talent e ex-Sepultura) e será nosso primeiro lançamento com letras em português. A parte ao vivo foi gravada no Catharsis Metal Festival, em Torelló (Espanha), na nossa turnê de 2013 (com o Statik Majik), na condição atual da banda, fica meio inviável fazer turnês, mas deveremos fazer alguns shows para divulgar o novo trabalho.

S.O.H em Emmen/Holanda. (foto: Luciana Pires)
8 – Deixe suas considerações finais para os leitores do Arte Condenada.
BG - Muito obrigado a você, Carlinhos, pelo espaço cedido no Arte Condenada, assim como pela força e parceria desde a época do Statik Majik. Também agradeço a todos que vem sempre apoiando e acreditando no Siege of Hate nesses 20 anos. VOCÊS são quem importa. Quem quiser conhecer mais sobre a banda, acesse nossa fanpage no Facebook (www.facebook.com/siegeofhate), canal no YouTube (www.youtube.com/siegeofhate) ou confira nossas músicas no Bandcamp, Soundcloud, Spotify ou Deezer. Vocês podem também conferir as letras da banda em siegeofhatelyrics.wordpress.com e ficamos à disposição para trocar ideias ou informações sobre nossos materiais (livro, CDs etc.) pela fanpage, por nossos perfis no Facebook ou pelo e-mail siegeofhate@yahoo.com.br. O Siege of Hate continuará fazendo barulho e incomodando muita gente por aí. Um barulhento 2018 a todos! \m/



2 comentários:

  1. Grande banda, George Frizzo é outro da safra de guerreiros do metal nacional. Eu ouvi a sua banda antiga, o Insanity.

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    1. Sim e não só o George, como o Bruno, onde ambos são grandes representantes do som pesado no Ceará e grandes personas do Metal Brasileiro.

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