quarta-feira, 19 de setembro de 2018

Gangrena Gasosa e a raiz do Saravá Metal

Eu que conheci a Gangrena no começo da década de 90 e acompanhei bem não só a sua carreira, como também toda aquela cena que acontecia na década de 90 por intermédio de várias bandas da época como, por exemplo, Sex Noise, Poindexeter e Second Come, sei da importância que eles tiveram naquela momento e de como foram o principal nome de tudo que acontecia do Rio de janeiro para o Brasil.
Um tempo atrás surgiu uma grande polêmica nas redes sociais através de um problema com o nome e as atividades da banda entre antigos e novos integrantes e que gerou muita polêmica, com pessoas defendendo e outras atacando. Bati um papo com Vladimir, guitarrista do grupo, sobre essa polêmica e também sobre os planos que a banda possui de agora em diante.
Vamos ao passe...ops ao papo !

Entrevista por Luis Carlos
Fotos: divulgação



1 – Bem, de cara eu recebi convite do teu perfil e logo vi postagens polêmicas a respeito do Gangrena Gasosa. O que de fato aconteceu?

Então Carlinhos, convidei você e muitos amigos, e conhecidos, que viram a Gangrena nascer, no início dos anos 90. E a intenção era de expor a situação absurda ao qual nos colocaram, perante um público novo, que tem como referência a história recente que vem sendo empurrada, através das redes sociais. O que aconteceu, de fato, foi o seguinte:  Em 2015, fãs começaram a entrar em contato, pedindo uma reunião dos membros da formação original, para tocar o Welcome to Terreiro (primeiro disco lançado pela banda) na integra.  Então, o Chorão, o Cid e o Paulão ficaram na pilha de fazer isso se tornar realidade e entraram em contato com a outra parte, para conversar sobre essa possibilidade, já que eles eram amigos. A ideia era fazer 2 ou 3 shows pontuais, reunindo a formação que gravou o disco, sem que prejudicasse ambas as partes. A conversa se estendeu um bom tempo, o Cid (baterista) tentou de todas as formas amigáveis, fazer com que isso fosse possível, inclusive até surgiu o papo de fazerem um show misto, com as duas formações, ou de usarmos um outro nome, mas eu por várias questões morais e éticas, que hoje, para mim estão justificadas por essa e outras atitudes de extrema má fé da outra parte, deixei claro que não dividiria palco com ele. No meio dessa conversa entre o Cid e a outra parte, ele deu entrada no INPI, com registro de marca mista, para a Gangrena Gasosa e continuou conversando com o Cid, como se nada tivesse acontecido, e sem ao menos comunica-lo, e solicitar a cessão de direitos, uma vez que TODOS sabemos que quem criou o conceito, o nome, o mascote (o Zé) e a logomarca, foi o Cid. A entrada com o pedido se deu em 10 de outubro de 2016, e só descobrimos em novembro, faltando pouquíssimo tempo para que expirasse o prazo para que entrássemos com oposição. Para nós isso foi uma atitude de extrema má fé, que não condiz com o tratamento de amizade e respeito que sempre existiu entre os integrantes originais e criadores do conceito. Todos nós sempre soubemos que a banda e a marca não eram registradas, e nunca quisemos nos apropriar de algo que não era nosso. Ainda mais assim na cara dura.

2 – Eu acompanhei a Gangrena do começo, de quando rolava as demos e dos primeiros shows, isso lá pelo comecinho da década de 90. Quando é que veio essa ideia de celebrar o primeiro disco com a antiga formação?

 Cara, na verdade essa ideia sempre existiu, dado que o “Welcome To Terreiro” e o “Smells like” , são discos clássicos da década de 90, que influenciaram muitas bandas, e fizeram parte da vida de muitas pessoas daquela época do Garage, e que curtem as músicas até hoje. Foi uma época de ouro no Underground do Rio. Porém, ela só começou a tomar força, em 2015, até por conta, de vários shows que começaram a acontecer, com bandas tocando seus álbuns clássicos, com a formação original daquela gravação. Ai o Paulão, o Cid e o Chorão, começaram a tentar viabilizar isso. Eu encontrei por acaso o Chorão num show do D.F.C, e a ideia era fazermos um show do WTT, e depois um do “Smells”. O que para mim não rolava, porque o Chorão queria que a outra parte participasse do show do Smells, e eu não topei, pelos motivos mencionados acima, e pelo fato dele não ter cantado no disco, mais do que 30 segundos, já que quando ele voltou para banda em 99, após ter substituído o Felipe, no Baixo por alguns poucos shows em 94, já estávamos no estúdio gravando, com todas as músicas prontas. Então falei que faria o show do WTT com os integrantes originais.


 3 – Hoje, parece existir então duas “Gangrenas”. Uma com nova formação e outra com os antigos membros. Sobre vocês, é possível que isso tenha alguma continuação?

Carlinhos, não existem 2 gangrenas. O conceito de “Saravá Metal”; é ÚNICO. Ele só poderia ser criado e desenvolvido pelas pessoas que haviam naquele grupo. Naquela formação inicial. E é tão forte, que se estende até hoje, porque é muito original. A Gangrena ultrapassou os limites musicais e se estabeleceu como um conceito artístico, representando um estilo único. A gangrena criou o seu próprio estilo, e sempre será vista assim. Inclusive, mesmo tendo uma postura totalmente anárquica no palco e fora dele. Nunca deixou de estar presente nos maiores meios de comunicação televisão, jornais e maiores palcos da época. Para mim que fui integrante por 20 anos da banda, e passei por todas essas fases, desde o WTT, até o “Se deus é 10”, está bem claro que existe a Gangrena Original, com os membros fundadores, donos do conceito e de toda a criação artística, e um grupo que se apropriou de maneira nada justa, e quer ter posse de um conceito que não lhe pertence. Visto que em todo esse tempo nada se criou e continuam a reproduzir as coisas que falamos, a história que não viveram, as músicas que criamos, e todo resto. Quanto as possibilidades de continuidade. Cara o que seriam 2 ou 3 shows, se tornou um projeto muito maior. Ainda mais depois de todas essas atitudes erradas que esse senhor fez. Então assim que resolvermos esse imbróglio judicial, temos ideia de regravar o WTT, fazer shows e relançar alguns materiais.


4 – Eu assisti o documentário e nele teve inclusive a participação dos antigos integrantes. Poucas bandas seguem sem seus integrantes originais ou fundadores, o Napalm Death e o próprio Sepultura são exemplos disso. Vocês acham que se o Gangrena Gasosa tivesse sido levado a frente por algum integrante fundador ou mesmo antigo, os rumos da banda teria sido outro?

Normalmente essas bandas, como as que você mencionou, seguem, porque obtiveram uma cessão de direitos sobre a marca. No caso da gangrena, o que está acontecendo é a apropriação da marca. Nós não transferimos e nem cedemos o direito. Nunca nós negamos a ajudar. Um cara, entrou com o pedido de registro, sem que o Cid ou nenhum de nós tivesse conhecimento, para se apropriar dela. E se não tivéssemos procurado advogados especializados, hoje já teríamos perdido o direito ao nome da banda. Sim, os rumos seriam outros. Cara, eu saí em 2011, e o Felipe em 2013. Não tem tanto tempo assim. Até o Disco “Se Deus é 10…”as composições são minhas. Então, eu considero que o que temos hoje não tem a essência da banda. É um projeto paralelo, sem referência e base. É só escutar os cd`s. A Gangrena, sempre foi um bicho estranho dentro do zoológico, com várias influências musicais. Nós chamamos atenção para uma coisa que ninguém prestava atenção, tanto nas possibilidades musicais quanto artísticas. 


5 – Sobre o primeiro disco, “Welcome to Terreiro”, muito se questiona sobre a qualidade dele. Se vocês concordam com isso, por que aconteceu? E se pudessem relança-lo algum dia, fariam uma nova gravação?

Carlinhos, é legal você falar isso, porque você viveu a década de 90, e você sabe que não tinha as mesmas facilidades que temos agora… Equipamento mais barato, facilidade de gravação, internet entre outras coisas. E hoje, para qualquer um que não estava inserido nesse contexto, escutar a gravação e criticar o disco é muito fácil. Na verdade, a Gangrena, nunca conseguiu colocar dentro de um disco, toda a energia que tinha ao vivo. O Welcome foi um pouco disso. Acho que o mercado não estava pronto para a gangrena, e de certa forma, a gangrena também não era madura o suficiente para lidar com isso. Éramos muito jovens e imaturos, vínhamos do subúrbio e não tínhamos acesso à equipamentos bons, bons estúdios. Tínhamos uma ideia muito grande, mas não tínhamos controle na parte técnica. O WTT foi gravado em sobras de estúdio, e assim que escutamos o disco, não curtimos o resultado, mas mesmo assim, ele se tornou um disco Clássico e extrapolou as expectativas. Se pudéssemos, remixaríamos esse disco, mas a master foi apagada. Na época, a RockIt, gravava em rolo e depois usava o mesmo rolo para gravar outra banda.  Eu tenho certeza que se tivéssemos essa master, track a track, com a tecnologia que temos hoje, nós conseguiríamos deixar esse material infinitamente melhor. Uma pena não termos essa master. É uma ideia regravar esse disco. Pensamos nisso há um bom tempo, não só ele como outros materiais também.


6 – O que fez com que cada antigo integrante saísse do grupo, já que a Gangrena sempre se destacou no meio musical alternativo. Se não concordam, o que acham sobre o que faltou para que a banda alcançasse conquistas maiores?

Foram motivos diversos, tanto pessoais, como profissionais e até morais. Eu saí em 2011 porque eu já estava desgastado, por causa das atitudes que outros membros vinham tomando, tentando agir pelas costas dos outros, e querendo ser maior do que a banda. Eu saí também por que em 2000, depois que gravei o Smells, eu resolvi conversar com o pessoal e investir numa turnê, pra Europa. Fiz os contatos, coloquei grana, arrumei parcerias e fomos. Quando voltamos, já com uma turnê possivelmente agendada no ano seguinte, e um convite para gravar o próximo CD nos EUA, os vocalistas, resolveram sair da banda, por achar que não era o tipo de vida que eles queriam. Eu sempre acreditei que o caminho da banda, para ela se tornar maior, e chegar no lugar que o conceito merecia, era fora do Brasil. Mas ele nunca quis. A prioridade sempre foi outra. Eu queria que a banda fosse maior do que era, e eu não via essa vontade e nem esforço para que isso acontecesse. Estávamos com material novo, e eu queria fazer outra turnê, mas nunca foi intenção dele, pelo menos, enquanto eu estava na banda…

7 – Deixe seu recado final.

Meu recado final é o seguinte:

A história começa do início, e não do meio ou do fim. As pessoas, antes de falar e tomar partido de algum lado deveriam realmente entender o que está acontecendo. Pesquisar a história da banda desde 1990. E não tratar a banda como se fosse um terreno baldio. A Gangrena nunca foi um terreno. Ela é uma criação artística. O Brasileiro não conhece seu direito, ainda mais os direitos autorais. Nós mesmos não tínhamos ideia de 20% do que isso representa. O Direito autoral é um bem inalienável. E não uma casa, que se alguém ocupar por 5 anos, vira dono.

Eu pergunto a vocês? Onde estava essa galera, em 1990, na hora que a banda foi criada?
Não sei. E provavelmente eles também não.

Onde estava essa galera com 5, 10, 15 anos de banda? Cara, dos que se dizem Gangrena hoje, nenhum estava presente. Um dos membros da outra parte passou pela banda 3 vezes. A primeira, eu o convidei para substituir o Felipe, em 94 (me arrependo muito, e peço desculpas para os amigos por isso), por poucos shows, saindo em 95, para fazer uma tour com a Dorsal, por que a Gangrena nunca foi prioridade dele. Depois saiu da Dorsal “não sei porque” e nós o aceitamos de volta, pela amizade, em 99, quando estávamos já em estúdio para gravar o Smells. Onde ele participou 30 segundos num CD inteiro. Se for por esse raciocínio, o B Negão é mais da banda que ele, porque gravou uma música inteira, rsrs. Em 2000, meu pai morreu, e eu investi o dinheiro que eu recebi de seguro, numa tour, o cara foi, e quando voltou saiu da banda de novo… Só voltando pra fazer um show com o Ratos em 2003, porque era a boa. Aliais, ele só ia nas boas se vocês repararem… Daí em 2005 o cara diz que quer voltar com a banda, pega metade das músicas que eu tinha feito e gravado em 95, junta com as outras melodias que eu tinha feito para um trabalho novo da Gangrena, fala que é dele, e agora ele diz que é dono da coisa toda… Por favor né? O mundo está ficando maluco!!! Daí em 2018 vocês já sabem o que aconteceu… E nesse meio tempo, a gente só tá se defendendo disso tudo. Eu quero que a Galera entenda que quem fala aqui é uma pessoa que atravessou TODAS as fases da Gangrena, e que só saiu em 2011, por conta de todas essas atitudes que ele vinha tomando… O que está sendo discutido aqui é a apropriação de um conteúdo único, uma ideia que já nasceu grande para o universo que habita, e que hoje está sendo apropriada de maneira indevida, e é apenas reproduzida. O que seria deles hoje, se não existíssemos ?

6 comentários:

  1. Excelente entrevista , Carlinhos. A Gangrena realmente criou um conceito ÚNICO, muito NOSSO (Brasil) e bem sacado. Assisti a banda algumas vezes e sempre me diverti pacas. Muito chato o que está acontecendo. Na minha opinião, os criadores da ideia (principalmente de uma original como essa), jamais podem/devem perder o controle sobre sua criação (a menos que abram mão por livre e espontânea vontade). Que venham coisas boas.

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    1. Cabe ao meu e ao do Blog divulgar aquilo que se considera relevante, e ainda assim não conseguimos suprir tudo. Bem, nenhum mídia consegue, enfim...Já entrevistei a formação atual, e agora diante do que esta´acontecendo, achei relevante entrevista-los também. O Blog não está de lado algum, mas sim, do lado da informação e divulgação do Rock e Metal.

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  2. Excelente entrevista meu camarada, estou por dentro do rolo que esta dando no gangrena. Espero que resolvam isso logo. Abração

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    1. Cabe ao meu e ao do Blog divulgar aquilo que se considera relevante, e ainda assim não conseguimos suprir tudo. Bem, nenhum mídia consegue, enfim...Já entrevistei a formação atual, e agora diante do que esta´acontecendo, achei relevante entrevista-los também. O Blog não está de lado algum, mas sim, do lado da informação e divulgação do Rock e Metal.

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  3. Quanta polêmica! Gostei da entrevista e lembro com saudades do meu tempo no Garage.

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    1. Cabe ao meu e ao do Blog divulgar aquilo que se considera relevante, e ainda assim não conseguimos suprir tudo. Bem, nenhum mídia consegue, enfim...Já entrevistei a formação atual, e agora diante do que esta´acontecendo, achei relevante entrevista-los também. O Blog não está de lado algum, mas sim, do lado da informação e divulgação do Rock e Metal.

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